quinta-feira, 30 de julho de 2009

De pipas e lembranças

Olhando céu final de tarde uma pipa no ar, despreocupada a criança corria e logo a buzina, o xingamento, pobre mãe...tudo terminou bem , um susto apenas , porem eu que observava de dentro carro ao lado viajei pra um tempo que pipas,  crianças e brincadeiras de ferias; tinham realmente um mundo, um lugar para existir. Não apenas nas pracinhas dos condomínios, veja bem , ainda sem incomodar os vizinhos que se preocupam se alguma delas tem o terrível e assassino cerol, ou se o barulho da alegria , os gritos infantis não vão incomodar os que trabalham àquela hora e lugar. Antes ninguém trabalhava em casa a não ser as nossas mãe e as suas ajudantes domesticas, enfim as mães de alguém , que muitas vezes ia pro campinho com a gente também.
Olha lá na memoria e veja onde era aquele campinho perto de casa com muita areia e algum mato na trave do gol, tinha pedras e mais pedras expostas, que a cada topão lá se ia um arsenal dolorido e feio mercurocromo, mertiolate e claro o esparadrapo e as recomendaçoes da mãe.Não fica descalço agora pode dar uma infecção , bicho geográfico, alias era também o banheiro de tantos "totos" e  os chamávamos assim. Voltando ao curativo um dia o bandaid ficou colorido e era lindo ter um em qualquer lugar então dá lhe topões rsrsrsrsrs.
Era assim todos os dias , o campinho não tinha lugar para redes , mas dava pra riscar o chão e jogar betia/taco,com o chão riscado bola queimada e o futebol dos meninos. Não tinha volei, nem basquete , mas onde iria colocar uma rede e aquelas bolas tão caras estragavam naquela areia.
Ah tinha sempre uma sorveteria com sorvetes enormes , cores variadas,e sabores quase sempre como os do refresco do almoço, mas era incrivel a meninada toda suja de líquidos róseos e pés no chão em fila chupando aquela coisa estranha que causava bigodes cor de rosa. Se não fosse a sorveteria , ao menos o homem do sorvete por ali sempre tinha. Esse tio , quase sempre era velhinho, um avozinho pobre que morava ali, deixava comprar e depois ia lá em casa pra mãe pagar, tinha o homem do doce e o do biju,quantas coisas deliciosas que se comprava assim na rua , ninguém passava fome.
E tinha sempre o melhor das ferias, o avo aquele que ficava de longe olhando as artes, calmo quase sempre careca era o companheiro mais velho nas coisas infantis, um avo era de muitos porque se iam por exemplo à padaria , na volta um filão(assim se chamava uma baguete bemmmm grande)  era dividido pedaço a pedaço arrancado com as mãos nem sempre limpas e comidos ali mesmo entre alguns, canivete usados pra picar fumo de corda também eram usados para cortar os pedaçõs, rsrsrs dando um tempero , um perfume que jamais foi esquecido.
Esse homem/meio menino geralmente ensinava a "roubar" ,quem diria, frutas dos muros mais baixinhos, flores pra mães  avós e professoras e no caso dos meninos pra primeiras meninas da lembrança...
Quantas vezes era ele tambem que ensinava a dar um pedacinho de algo pro cão de guarda do lugar a falar com ele olhando nos olhos e correr até morrer se ele não fosse com sua cara e desandasse a mostrar dentes e latir.
Tinha tambem as coisas proibidas que  os avós nunca se contentavam em acatar, vinham doces fora de hora , tomava sorvete resfriado, ia no parque de diversões mesmo de castigo, porque avo não da pra contestar e, quando esta do nosso lado é um anjo mesmo um pedacinho do Pai do Céu.
Eu amei o meu muito , da pra perceber né? E amo avós até hoje...
Me pergunto o que se fez deles , sei que hoje são muito mais jovens ou muito mais idosos, uns não tem tempo porque ainda trabalham muito os outros porque lhes falta força,viço pra acompanhar os moleques prodígio de hoje em dia.
Eles os meninos e meninas  nem ligam muito , avo não sabe muitas coisas de playstation,wii,guitar hero etc.
Quantas lembranças da cartolas (pipas sem rabiola) que aprendíamos a fazer , comprar papel, escolher cores e soltar lá no campinho sem preocupações de carros ou cerol ninguém queria brigar so queria que fossem cada vez mais e mais alto. Saudades de meu avo, de tantos avós que nos levavam pra escola e ouviam nossa mentiras infantis com cara de acreditarem, se contavam pros nosso pais o faziam tão discretamente que sempre eram nossos mais queridos confessores.
Saudades e uma certeza, se ainda houvessem avós como antes certamente ainda existiriam campinhos de terra , eles os  encontrariam pras suas crianças e é claro menos crianças atropeladas por correrem atrás de pipas nas ruas asfaltadas desta agora grande cidade.




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