quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vidas I, II, III, IV, V

 I.De borboletas e cavalos

Um mercado em uma cidade estado ao norte de onde hoje se conhece por Itália , era Ano do Senhor de 1320 .

Por sorte ocorreram as chuvas no verão e assim o ar estava razoavelmente perfumado ou mais claramente dizendo limpo...
A  menina estava descobrindo diariamente, com seus avós coisas que o porto envolvia, alem do Mercado, onde os produtos de seu pai eram recebidos e comercializados  com festejos.
Naquele dia estava encantada com as cores do verão, com as flores que cresciam sem cuidado próximo as guias onde parara para ver os ambulantes, por todos os lados levavam carroças com os produtos do desembarque. Interessante olhar todos aqueles tecidos diferentes e sentir os odores daquelas ervas que a avó tanto esperava, estava aprendendo com ela a fazer perfumes, muito úteis tendo em vista o calor ,

também usa-las como conservantes de caça e aves,  onde algumas eram colocadas, mesmo com as carnes sendo envelhecidas na gordura , elas se encontravam perfumadas e saborosas, sem o ranço da gordura velha quando assadas ou cozidas.
Uma coisa sempre lhe chamou a atenção no verão, a grande quantidade de borboletas que ficavam nas poças formadas, no chão do porto, será que elas gostavam do sal? Ou apenas se refrescavam? Interessante bicho, este que fica por tanto tempo numa mortalha e ao contrario de um corpo sem vida, ao rasgar o seu “tumulo” liberta-se para o infinito com todas as cores possíveis aos olhos verem.
E foi neste momento que uma revoada delas a assustou, o som a seguir foi apavorante, muito provavelmente alguns cavalos seguiam sem arreios e,  saíram em disparada pela rua estreita.
Sem saber para onde ir, já que havia se afastado da ama e da avó a pequena Ania foi se esconder próximo a uma carroça, sem perceber que o tropel assustou a mula e...
O acidente ocorreu. Uma menina de nove anos que sofre  o pisoteio de um cavalo sobre suas pernas, por assim dizer, já é algo triste, mas quando a seguir percebe-se que as mesmas estão deslocadas chega-se a pensar que não há oportunidade que a vida retorne, mas...
Uma avó descendente dos fenícios que aprendeu de seus ancestrais tratamentos utilizados por médicos gregos e uma serva vinda do oriente com o marido, o ajudante de viagem do  velho senhor mercador, fizeram a diferença entre viver e morrer para a menina da família D´Antonieto.





II.De crescer entre perfumes

E sabores...

A pequena Aniella assim que se viu capaz de olhar ao redor e reconhecer-se viva percebeu o tamanho da perda para o seu querido pai.
Muito jovem, mas muito inteligente sabia que tendo perdido a mãe e não possuindo irmãos era a ela a responsável pela continuidade da família e muito em breve, como era o costume, cerca de mais três ou quatro anos ela seria consorciada a um mercador ou filho de um mercador. Assim os barcos, as peças de animais e servos seriam o seu dote, a continuidade de uma vida dedicada ao mar, às conquistas e ao comercio, que seu pai e avô haviam conquistado desde que os senhores feudais, os Doges os agraciaram com o direito de serem os representantes da Cidade no comercio do além reino.

Por isso a tristeza, ouvir dos médicos do Governante local, gentilmente cedidos ao seu pai, que ela sua única filha estava perdida, que seria certo mesmo somente a vida religiosa, isto se ainda sobrevivesse às febres que esta passando, ou mesmo se nada estivesse apodrecido dentro de si, já que o impacto fora realmente muito forte, como era estranho falarem dela mesma como se não estivesse ali.

A velha senhora, a avó, diante do desencanto do genro ofereceu-se para afastar a criança de toda esta tristeza e dar a ela, atenção nos momentos que poderiam ser os derradeiros.

Juntamente com Horiab, sua fiel serva, que fora ama de sua filha e que o marido auxiliava ha muito os senhores nos segredos do mar das Índias, ambas, empenharam se em criar um ambiente perfumado por incenso, misturando os religiosos e, aquelas ervas secretas muito já utilizadas como temperos e conservantes...

E, muito cuidadosamente prepararam uma bebida forte o suficiente para que Ania, realmente nada sentisse ao deixar o seu corpo a não ser o sono provocado pelo meimendro e, a frescura da menta daria a bebida um sabor mais suave para ser sorvido sem recusas pela criança...

Não foi simples, mas tudo estava feito...

Que sonho estranho a criança pensou, uma dor muito grande em seu lado direito, a impedia de mover-se, mas sentia-se tão livre, observando de perto aquelas formas como borboletas com asas, lindas por sinal. Uma delas veio sorrindo em sua direção e, por um instante ela sentiu um perfume conhecido, mas não se lembrava exatamente de onde.

Devem ser a rosas de minha mãe, que sob o vento forte perfumavam o quarto em dias de ventania ou depois de algumas chuvas leves.

Mas não conhecia aquele quarto, ou melhor, um balcão sobre um lago muito claro parecendo um espelho do céu, Assim, por um tempo sentindo o perfume e observando as formas; ela sentiu o peso aos poucos ir passando, a dor sendo aliviada e mais confortável, pode seguir atrás de uma das formas que a convidou a um passeio.

Com o cuidado de não se distanciar muito do lugar ela seguiu aquela moça “borboleta”.

Foram até ao jardim junto ao lago estava frio, mas de um frio que só arrepiava; como brisa fresca da manha, pode ver outras crianças, que brincavam junto de outras figuras aladas.

Ao se sentir capaz de falar então perguntou onde seria aquele lugar, mas não dizendo nada, estranhou receber uma resposta tão rápida.

Querida criança, não se preocupe com nada que aconteça neste momento, isto é apenas um passo novo na sua caminhada, muitos foram dados em um espaço muito pequeno de tempo, mas agora não será possível explicar-te a este respeito. Acompanho seu caminho sua forma de aprender com as suas guardiãs e tenho a grata certeza que muito você fará para aliviar dores como as que você mesma agora sente e outras, que não será preciso passar para se condoer.

Seja simples querida Aniella, não se revolte com as escolhas que a vida lhe fizer, ao contrario faça a felicidade daqueles que se achegarem a ti e algum dia poderemos comemorar novamente num abraço de mãe e filha todo o amor que nos uniu neste momento...

Ao acordar, estranharão o acontecido, mas você não se preocupe; seja dócil que, em breve, muitas portas se abrirão, Que os Mestres de Amor cuidem e Ti e o Nosso Pai possa abençoar seu caminho, para o futuro.

As borboletas e a alegria deste encontro serão a sua lembrança, o mais será apenas um sonho sobre o efeito de um sonífero muito forte...



III.Uma nova habilidade

Ao acordar, foi espantosa a reação de todos ao redor do leito da menina, porque não se esperava muito tempo mais de vida, já que havia alguns minutos que a mesma, não estava mais respirando ou tendo qualquer reação em seu corpinho tão frágil e machucado.

Mas as mulheres sabiam que algo se passara naquele momento, o perfume das rosas de Cecília mãe de Ania se fez muito forte por todo o tempo no ar, porém segredos são segredos, impressões femininas, é sempre mais seguro não demonstrar.

Loucas não possuem muito credito, mas bruxas; bem as bruxas, são sempre malvistas.

Assim, ao se ajoelharem para agradecer a Deus o suspiro de vida que novamente preenchia o corpo da criança, ambas, avó e serva se olharam e sentiram a presença ali de alguém muito querida, em pensamento e perfume.

Os meses seguintes foram de muita dor, todos se interessaram pelo acontecido, em especial , os doutores do Doge, os mesmos que lhe vaticinaram a morte, com a estranha recuperação; ela tornou-se uma espécie de brinquedo destes senhores, todos de pouquíssimas palavras.

O pai, nem tinha tempo para si, por que se preocupar com alguém que no momento apenas o fazia estreitar suas relações com a classe dos governantes locais.

Melhor que a vissem, assim, muito teria a falar com o Doge quando este o convidasse para uma próxima entrevista no palácio.

Enquanto isto...

Aniella foi se distanciando cada vez mais do medo que sentia por aqueles senhores de roupas estranhas e tantas perguntas, enquanto as respondia, apenas observava olhares que em muitos momentos , ficavam paralisados.

Perguntas sem cuidado a respeito do que sentia ela quando tocada, acordada ou dormindo, se podia sentir-lhes as vontades ou apenas a pele, enfim coisas estranhas, mas que ela respondia delicadamente sem, no entanto, permitir que eles a intimidassem ou obrigassem a situações que dentro de si considerava, inadequadas e, eles ficavam cada dia mais encantados com aquela criança.
Enquanto isto os sonhos se repetiam sempre; com as pessoas aladas, já conhecidas e outras mais austeras ou elevadas, as quais não lhe eram possíveis perceber além da luminosidade, que os envolvia , em cada encontro, recebia as mais concisas respostas para tudo que estranhamente lhe seria perguntado nos dias que seguiam a cada sonho...


Ao constatarem o retorno da saúde da menina, apesar de uma duvida no ar, se com as pernas um tanto deformadas seria possível a ela ser a continuadora da linhagem, muitas mulheres morriam ao dar a luz ou mesmo antes, deixando muitos homens sem descendentes, sendo saudáveis e perfeitas, o que poderia ser de uma que teve pernas e órgãos internos deformados por algo tão violento. Enfim os doutores se foram.

Pobre senhor D´Antonieto, fez-se sabido ou melhor, combinado que haveria um consorcio sim, não com um jovem, mas com algum comerciante que mais velho já não precisaria de filhos para continuar sua linhagem, mas de uma esposa para lhe cuidar durante as voltas a terra firme depois de tempos solitários no mar. E tudo se decidiu por si...




IV.Uma semente se transforma em flor...

Por cerca de seis anos Aniella esteve junto da avó e Horiab apenas, a senhora Catharina, muito respeitada entre as pessoas de Genova tomou para si a educação da menina em artes femininas,como bordar e tecer, não apenas ; ao ensinar os sabores da cozinha pode ensinar o que aprendeu de seu pai, pois antes ele fora um viajante pelo oriente e, destas viagens pode entrar em contato com civilizações, que acreditavam em almas diferentes, e agora sequem poderiam dizer , o clero...

Ah, Horiab muito zelosa não demonstrava longe das amas seus conhecimentos de ervas, estrelas e números mas, nos momentos de companhia , onde por anos seguidos os homens viajaram e elas ficaram apenas guardadas por valetes e servos, os segredos puderam ser compartilhados.
Assim nestes anos se compôs uma nova musica na vida da agora jovem signorina

Donna Aniella D´Antonieto.

Por causa das febres que durante anos atingiram as populações nas cidades, para se protegerem, ficaram enclausuradas em seu pequeno palácio, mas quando podiam se empenhavam, com bastante cuidado, sem se deixarem perceber; e colocavam suprimentos em pequenos barcos para que pessoas que fugiam das pestes e pragas ao encontrarem tais naves em canais da cidade pudessem se alimentar e seguir ainda vivos apesar do estigma de serem andarilhos no reino.

Alguns conseguiam se aproveitar do ato, mas em geral apesar da boa vontade; a atitude alimentava também os responsáveis pela tão assustadora doença; a peste.


V.Crescer entre mudanças...
Os novos tempos chegaram fazendo que as mulheres se tornassem muito mais cuidadosas entre si, seus conhecimentos agora também compartilhados pela jovem estavam entre tudo que as novas regras religiosas e políticas queriam evitar.

Mulheres com conhecimentos de arte e medicamentos tão profundos quanto os médicos, ou até mais era liberdade que apenas em algumas cidades podiam usufruir, tanto tempo sem seus maridos, ou pais, muitas decisões teriam que ser resolvidas por elas mesmas.

E neste caso especial, uma serva tratada como igual muitas vezes se fazendo de mestra em artes, instrumentos, danças e mistérios que apenas nascidos no oriente que cresceram em caravanas poderiam conhecer.

Horiab conhecia de astronomia, medicamentos, venenos coisas que aprendeu nas caravanas com seus familiares antes de serem feito reféns e em seguida deixados em poder dos novos conquistadores do Oriente , os Cruzados.

Mas os senhores desta família não se importavam em transgredir regras ditadas por aqueles que sequer se aproximariam dos perigos que eles corriam desde que pudessem conquistar respeito e tolerância para seus negócios, sendo assim o casal foi considerado como protegidos, por esta família mesmo que com a apresentação disfarçada de servidão.

E, foi deste encontro de culturas que era educada a jovem Ania.

A generosidade e gentileza eram características de todas, por isso o cuidado com os fugitivos da peste, importar-se em alimentá-los e ajuda-los a encontrarem lugares secos e limpos para pernoitarem na cidade sem serem capturados e enviados à prisão, onde certamente, todos se encontrariam com a Febre tão maligna. Não era justo para aqueles corações, saber que não se fazia distinção entre crianças e velhos saudáveis ou não, se fossem encontrados todos iam para as prisões e certamente para a morte na podridão.

Certas noites quando a lua não era tão brilhante após verem o por do sol, quadro comum nas famílias de mercadores que encontram seus entes queridos, no mar durante o crepúsculo, em lembranças e desejos de uma viajem feliz, segura e um retorno breve. Elas despidas de roupas mais rebuscadas, colocavam-se a caminho das portas da cidade e por lugares conhecidos só pelos antigos saiam e encontravam estes coitados, os levando para pequenos casebres nos campos próximos, limpos e preparados por elas e seus servos durante as horas do dia.

Não eram interrompidas, mas certamente sem que percebessem eram observadas e protegidas pelos valetes encarregados de seu zelo pelos senhores locais.

Não faziam mal em ajudar, desde que não os colocassem dentro da cidade. E estando na terras da família o direito era delas. Que estas mulheres fossem loucas, pobres de seus maridos, pensavam os responsáveis por mante-las seguras e retornarem sem que algum malfeitor as atacasse; embora houvessem muitos.












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