XVI.Em um outro lugar... Sonho?
Ania acordou sem reconhecer onde estava, sentia apenas que já fora amparada naquele mesmo lugar pelas formas aladas, tão amadas.
Sentindo as forças retornarem, percebeu uma presença desconhecida, de intenso brilho, seus olhos não conseguiam ver além da forte luz, ouvia-lhe calmamente as palavras.
Estaremos junto de vocês, como pais amorosos acompanham os primeiros passo de um filho, nada podemos fazer a respeito de suas decisões pessoais, são seres livres para seguirem o caminho que escolherem...
Estando unidos em matrimonio esperamos que a união seja consumada e advenham as alegrias e os compromissos nela envolvidos.
Muito foi aprendido por ambos quando estiveram conosco e desejamos que se cumpram os projetos firmados neste plano.
Seja dócil, minha filha, não tenha medo de ser todo o amor e, no momento apropriado ser capaz de auxiliar aqueles que pelas dores da vida a procurarem para conforto e pacificação.
Seu companheiro assusta-se com seu envolvimento, apenas porque as lembranças dele, em função da sua difícil experiência, não o levaram à aceitação da dor
Ele ao contrario de você vacila em se confiar a providencia divina e se apóia nas regras sociais, que lhe parecem mais seguras que o convívio, que considera inadequado com pessoas de classes sociais e princípios religiosos diferentes dos seus
É da sua parte algo a realizar; aproximar este coração de uma aura de amor mais universal que apenas por seus entes queridos e comprometimentos sociais.
O nosso tempo esta se esgotando, já estás acordando para a sua vida, leve paz e amor em seu coração e nós estaremos muito presentes em seus sonhos, de ambos nos próximos tempos, seja confiante ,tenha fé e os compartilhe com seu amado Antonio.
Nova lembrança deve ser criada em ti, pois agora entre vós não deve haver mais segredos, a confiança e fé que os unirão deve vir da sinceridade em atitudes e sentimentos que vocês demonstrarem um para com o outro. Muita Paz...
XVII.Um tempo para reparar alguns erros...
Acordar nos braços de Antonio e ver que seu olhar mudara, agora já não era tão frio,ao contrario,lembrava algo muito antigo, estava muito cansada só conseguiu olhar carinhosamente para ele e depois voltar a dormir.
Neste momento e pelos próximos dias ele não se moveu do leito que agora ambos compartilhariam, mas pelo estado de Ania cada dia mais o afligia o futuro.
Desde o desmaio ela não conseguira sequer falar com ele, era sempre aquele olhar suave, mas dolorido nas poucas vezes que a percebera acordar.
Dona Catharina fora chamada e apenas a ela e Horiab ele tivera coragem de confiar o ocorrido.
Estava de fato muito angustiado e percebendo nas velhas senhoras um cuidado sincero para com seus sentimentos, pode abrir o seu coração.
Sentira medo e reprovação quanto ao modo que se fizera o casamento, não queria para a doce jovem, uma vida de solidão e ao mesmo tempo, ainda que respeitasse as suas atitudes para com os mais pobres, seu modo de ver a vida , lhe dizia que tal atitude não era segura nos novos tempos.
Tudo isso levara às decisões tomadas e comunicadas na noite do matrimonio. Já se arrependera, mas era a maneira que sabia fazer as coisas em sua vida, nunca precisou consultar ninguém em suas decisões e foram sempre acertadas.
Agora temia que seus princípios fossem o fim para alguém que ele só tentou proteger.
A velha senhora, com paciência ouvindo aquele homem, que diferente de seu genro,ela o sabia, tinha por seus servos e pobres imenso desprezo, pedir ajuda para salvar a sua neta querida, teve que conter suas reprovações e, muito apropriadamente confiar lhe segredos que até então nunca compartilhara.
Sempre tivera visões, e principalmente depois do acidente com Aniella muitas se fizeram mais reais que as anteriores. A saúde da menina lhe foi atestada por uma jovem muito bela que dizia chamar-se Amália, e ela mesmo lhe dissera, que brevemente Ania seria a continuidade de sua vida, junto de um grande amor de ambas, em outro plano. Que esta pessoa sofreria serio abalo na vida e muitas vezes, desejaria dar-lhe um fim, deveria eu auxiliar minha neta no caminho da compreensão e apaziguamento deste homem, a principio acatando suas maneiras e depois introduzindo em seu coração maior atenção aos sentimentos e menos aos ganhos materiais.
De acordo com o que fiz toda minha vida, ensinei Ania a apiedar-se da pobreza, a que vem da falta de recursos e é claro a causada por atitudes morais desprezíveis. Mesmo não concordando, para minha vida; muitas vezes auxiliei em intervenções que seriam consideradas bruxaria, mas foram a maneira que pudemos nos utilizar para impedir males muito maiores em vidas já muito atormentadas.
Nunca questionei, fiz para o bem dos menos providos e sinto que sou feliz comigo por isto. É claro que foi preciso manter tudo em segredo, principalmente nos últimos tempos.
Mas como instrução para uma esposa; pedi que Ania aos poucos revelasse algo de seus feitos, pois acredito que entre um casal segredos apenas servem para destruir os projetos de alma que se fizeram noutro plano de vida.
Acredito nisto, meus ancestrais foram de acordo com sua cultura, crentes de mistérios que hoje são considerados heresias, mas a pureza de princípios jamais fez mal a quem quer que seja.
Sinto – me protegida por algo muito maior que as forças militares dos homens cada vez que me expresso como um instrumento de auxilio e amor.
Eu gostaria de chamá-lo de meu neto, dado a minha idade, estou cansada, pouco viverei, farei o possível para salvar esta criança, mas agora eu a coloco em sua guarda e desejo que olhe para ela com muito respeito e amor. Não desdenhe de seus sentimentos, pois mesmo muito jovem, ela é consciente que é responsável por fazer de sua vida algo melhor, confie-se a este sentimento que vejo em seu olhar e, que muitas vezes procura me ocultar. Eu sei que ensinaram a você, que nós somos apenas as mães, mas não foi de sua mãe que aprendeste as primeiras lições de amor e respeito?
Entre escolher a guerra entregue-se a paz e sejam felizes, nada mais posso dizer, alem do que me foi permitido transmitir neste momento, A saúde de Ania voltará em breve e deste momento em diante a vida pertence a vós, façam dela o vosso melhor esteio e caminhem juntos e em paz, respeito e amor.
Dito isto dona Catharina apenas retornou aos cuidados com a jovem, que em alguns dias já demonstrava sinais de melhoras, pois a febre havia cedido.
Foi difícil manter os servos afastados do aposento, e os magistrados e médicos também, mas era preciso porque com a febre que se instalara poderia Ania ter sido levada ao lugar dos pestilentos e então sua vida ter se ia cedo consumada.
Graças ele deu a Deus quando pode finalmente ouvir sua voz.
Iria fazer algo em doação a Igreja para agradecer tamanha benção do Senhor.
XVIII.Enfim o encontro...
Ela enfim acordou de um sono tão profundo que, não imaginava estivesse entre a vida e a morte por semanas.
Olhou ao redor e viu o Senhor de Savona ajoelhado em seu oratório, não quis retirá-lo de suas preces, mas instantaneamente ele se voltou para o leito e de forma súbita a envolveu nos braços.
Que momento poderoso, os olhos de ambos continham um sentimento indescritível, apenas refletido, um no outro...
Quanto tempo eles ficaram naquele abraço interminável...
Antonio colocou - se sobre a cama cuidadosamente e não cessava de olhá-la, estava diante de um milagre, pela primeira vez sentia que a Vida retribuía suas preces, com a presença de uma benção de amor.
Ania suavemente falou...
Meu senhor, eu aceitarei suas vontades, pois não me cabe discuti-las, ao me consorciar convosco, sabia das necessidades e direitos de uma esposa e por respeito às sua vontades meu esposo, estarei ao seu lado em qualquer decisão que tomares,mesmo que seja sobre minha vida, pois já não é só minha e, enquanto vivermos ela vos pertence.
Lagrimas estavam nos olhos de ambos. Não foi possível nada mais dizerem...
O abraço tão forte e a onda de calor que os envolveu tornou os desejos escondidos, por ambos uma sede que aos poucos foi sendo saciada.
Os carinhos foram se intensificando e sem que percebessem eram agora os dois, definitivamente marido e mulher aos olhos de todos por esta vida e por outras mais.
A Intensidade do momento os fez deixarem os pudores comuns, naqueles tempos e explorarem seus desejos e corpos com atenção e carinho. Aos poucos ambos perceberam que tinham um para com o outro uma intimidade que jamais haviam imaginado fosse possível.
Ele nunca, mesmo entre as cortesãs, havia se demorado num leito da forma que estava agora e ela pode entender o que as suas amadas guardiãs, diziam a respeito de um verdadeiro encontro entre seres que podem ser felizes juntos para toda a vida.
Despidos de vestes e atitudes temerosas não contiveram os carinhos nem os desejos de se explorarem eram amantes, sim; como aqueles que só sabiam existir em poesias muito secretamente cantadas pelos bardos...
Enfim cansados e felizes, como nunca estiveram na vida abraçaram-se e se calaram, não havia o que dizer além do que seus olhos fizeram expressar.
Ainda era dia, mas já estava quase ao crepúsculo e, sem se falarem, mas com um intenso olhar recompuseram-se de suas vestes e juntos, nas mãos e nos sentimentos caminharam até ao balcão lá olharam o horizonte e foi como se lá pudessem realmente agradecer a Algo Maior esta nova vida que juntos iniciavam...
XIX.Os dias seguem...
Numa cidade cercada por mar feita de muitos canais, as chuvas agravam e muito certos problemas, então neste tempo úmido e quente novamente a onda de febres voltou a amedrontar e causar perdas na população, não só entre o povo, mas entre os nobres também.
Sem saber ao certo como se sucedeu na casa de seu pai, ele, sua avó e a querida Horiab foram um a um dizimados pela peste, não foi possível sequer dar a eles um enterro decente, as leis proibiam, aos saudáveis aproximarem-se dos cadáveres.
As preces por suas almas foram feitas na casa do Senhor de Savona entre os parentes que se dispuseram acompanhar o tempo do luto.
Foram dias muito difíceis, mas a presença de Antonio ao seu lado e as preces juntos no final dos dias fortaleciam seu espírito para os próximos acontecimentos.
Ela agora sabia que era a esposa deste homem que apesar da sua importância social, permitia-lhe momentos tão especiais como os que diziam suas boas “mães” terem vivido com seus estimados maridos.
Era muito feliz, nem poderia dizer o quanto, apesar da dor de toda a perda de entes tão amados.
O inverno foi se aproximando e, agora era o momento de Antonio tomar conta também dos compromissos do comercio dos Antonieto, seu dote garantia-lhe o direito, era preciso cumprir os compromissos sóciais e mercantis, para poder manter-se na hegemonia deste comercio. Fora chamado certa manha ao palácio do Doge, onde os governantes se encontravam em comissão.
Novamente sentiu um forte aperto em seu peito, como não sentia há muito tempo.
Estivera ali em momentos, para ele, considerados vis, sua moral não aceitava certos acordos aos quais se obrigavam para manterem o poder e, sabia certamente que deveria agora participar de mais algum destes.
Novamente o Senhor de Ângelo seu aparentado foi quem proferiu a ordem que deveria ser seguida muito em breve e sem restrições.
Partiria para as Índias, faria a rota comercial de seu sogro, pois esta há tempos sem alguém de Genova acabara de ser apropriada por comerciantes de Florença e pior, Roma estava apoiando os inimigos. Se não se movimentassem em garantia de suas rotas e portos de comercio, em breve não os teriam mais.
Do momento do casamento até este dia passou - se cerca de três meses, foram os mais felizes da vida de ambos.
Juntos puderam conhecer-se, ela entendeu muito do que a senhora Catharina havia dito enquanto cuidava de sua neta.
Fora com ela nas cercanias da cidade nas terras agora de sua propriedade, conheceu a cabana onde muitas vezes as senhoras deixavam alimento e vestes limpas para os fugitivos da “peste” e também para pobres mulheres em situações difíceis.
Pode entender como a natureza dava forças novas à aqueles que nela confiavam,seus perfumes e alimentos frescos foram uma descoberta agradável para alguém que só conhecia caças e ensopados gordurosos.
Aprendia a utilidade das ervas da velha senhora entre os mais pobres que não podiam se utilizar dos médicos, se bem que na verdade estes é que na maior parte das vezes se utilizavam dos nobres. Quase sempre os que estavam aos seus cuidados pereciam de formas as mais variadas.
Enfim aprendera a respeitar a sua senhora com compreensão aos seus ofícios, mas ainda temia pela sua vida no respeito aos tempos inseguros para mulheres conhecedoras de ervas e medicamentos.
A inveja de tais médicos fazia deles extremos defensores da nascente Inquisição às bruxas.
Tudo isto passou pelo seu pensamento ao ouvir que teria uma semana para aprontar os navios e partir. Desta vez ele quase desfaleceu, mas imaginava que o tempo seria até menor, melhor seguir e fazer os ajustes necessários, entre eles, ter tempo para se despedir de sua amada Ania.
XX.Recomendações necessárias...
Eles choraram abraçados em seu quarto, era lá que podiam ter a liberdade que descobriam ser possível entre os casais, porque aos olhos de todos eles ainda se apresentavam como o esperado; ele o senhor e ela a cordata esposa.
Os tempos realmente estavam mudando, nos meses anteriores algumas mulheres foram presas pela inquisição e os judeus já bastante excluídos tiveram que partir de suas casas deixando bens para a igreja, estes os que não foram feito prisioneiros em estranhos processos.
Era preciso uma serie de recomendações, algumas ele sabia seriam difíceis ate de dizer, mas era preciso.
Em outros tempos fora mais simples, mas agora seria preciso que fosse o mais discreta possível, não poderia dar passeios ao porto, mesmo naqueles momentos em que ambos se acostumaram a agradecer a própria vida, junto do mar.
Não seria seguro também caminhar só pelos arredores da cidade, mesmo que fossem suas terras, havia salteadores e pior, muitas pessoas conheciam a cabana na floresta e poderiam ao vê-la por lá e envolve-la em algum processo sobre bruxarias.
E principalmente, não desse auxilio, em hipótese alguma, às cortesãs ou a qualquer jovem em desgraça isto seria uma afronta aos novos tempos de governo, pois da associação com a Igreja que eles poderiam ter novamente o direito de suas rotas e feitorias comerciais. Estavam todos na cidade sob observação, os florentinos tinham poder sobre a igreja e eles precisavam conquistar também.
Com muito carinho ele, porém também disse que acreditava em toda sua boa vontade em ajudar, mas as regras deveriam ser seguidas, pois em contrario ele também sofreria restrições em suas atividades ou coisa pior.
E finalmente, que seus homens de confiança estariam presentes para fazer-lhe possível realizar da melhor maneira o que pudesse ser feito de bem para os mais pobres, mas eles diriam a ela quando fosse possível ou não.
Eram seus serviçais, alguns o foram desde a sua juventude e por isso confiaria a sua segurança a eles.
Talvez este tivesse sido um erro, mas só saberia depois, bem depois...
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